
Documento do PCBUS:
Particularidades da atual situação política na Rússia e a luta contra a restauração capitalistaNo limiar do século XXI a formação capitalista continua a manter as posições mais estratégicas no cenário mundial. A crise geral do capitalismo, surgida com o resultado da Revolução Socialista de Outubro de 1917, adquiriu caráter prolongado. O capitalismo descobriu uma capacidade não somente de se defender como de assestar rudes golpes no socialismo, cujas conseqüências a humanidade vai sentir ainda por mais de uma década.
O imperialismo é o filho dileto e monstruoso do capitalismo em sua última fase, que se deleita com sua grande vitória na humanidade de hoje. Contudo, isso é temporário.
Arruinaram a URSS e seu socialismo, assim também na Europa Central e Oriental.
Por onde quer que se olhe: Ásia, África e América Latina, o que se vê é a formação do sistema de exploração neocolonial.
As mais avançadas conquistas da humanidade nos campos da técnica, ciência e informática são colocadas justamente contra os seus mais íntimos interesses vitais.
A pretexto da decantada globalização instaurou-se a mais desapiedada exploração dos povos e países de todos os continentes, por via dos monopólios transnacionais. Conforme o informe do Comandante Fidel Castro, no encerramento do Encontro dos Povos do Sul, realizado em Havana, a globalização beneficia apenas 20% da população mundial em detrimento dos outros 80%, ao mesmo tempo em que cresce a cada dia o abismo que separa os países ricos dos pobres.
Fortalecem-se os blocos militares do imperialismo e o seu sistema de bases militares difundida por todo o globo. De forma particular cresceu a agressividade do imperialismo norteamericano, que sonha abertamente em dominar o mundo.
E foi justamente o imperialismo que desatou as catastróficas duas guerras mundiais deste século XX e carrega a principal responsabilidade pelas guerras e conflitos localizados que eclodiram nos últimos tempos. Foi ele, também, que deflagrou a corrida ar-mamentista no planeta e a produção em enormes quantidades de armas de destruição maciça. É o imperialismo, ainda, o grande perigo para a ocorrência de novo conflito mundial.
Na atual etapa imperialista de desenvolvimento capitalista fez parte também de seus planos a restauração do capitalismo na Rússia. Os monopólios industriais e financeiros, em estreita ligação com o capital internacional, intrometem-se diretamente na política interna e externa dos governos dos regimes de restauração capitalista da ex-URSS. Com o findar dos anos 90 está quase concluída a repartição da propriedade socialista daquela antiga potência entre os principais grupos financeiros e industriais.
Hoje ocorre uma encarniçada briga pela partilha patrimonial com base numa nova correlação de forças desenvolvida entre eles. Recursos petrolíferos e energéticos em geral, de transporte, industriais, incluindo o enorme complexo industrial-militar, um dos principais pivôs dessa luta em que jogam papel ativo as elites regionais recém-formadas que estão em disputa. E não estão envolvidas apenas as elites locais, há também as da Tartária, Bachquíria, Yacútia, Calmíquia, além daquelas formadas por populações provenientes de regiões com raízes russas, como do Povólgue (regiões de Saratóvska e Nijegaródska), dos Urais (região de Ecaterimburska), da Sibéria (Extremo de Crasnoyarsk) e de outros mais.
Manifestam-se, no país, tendências separatistas, onde a maior parte dos 89 representantes da Federação Russa não respeitam plenamente a Constituição russa. Por exemplo, muitos dos representantes dessas regiões ou territórios reservam-se o direito de tratar de assuntos internacionais diretamente, isto é, em contato próprio com autoridades ocidentais e do Japão, ignorando o poder central da Federação russa.
A ameaça de desintegração da Rússia, ela própria conseqüência da política de restauração capitalista, fazendo uso dos sentimentos nacionalista-separatistas contra o poder soviético, transformou-se num dos principais fatores que condicionaram a permanência de Bóris Yeltsin e mesmo a ascensão do novo presidente – Vladimir Putin.
Não foi por acaso que o processo de chegada de Putin ao poder tivesse início com o desatamento de uma nova guerra na Chechênia. Era necessário demonstrar para toda a Rússia, e ao mundo, que o regime russo era capaz de medir forças e dar conta dos separatistas che-chenos, os quais venceram os russos na primeira guerra chechena de 1994/1996. A política de tratamento pacífico do conflito checheno era considerada publicamente como de traição e o tratado de paz de 1996 foi simplesmente desprezado. E isso sem se esquecer que naquela primeira guerra morreram mais de 100 mil pessoas, basicamente da população civil.
Por enquanto não se tem dados objetivos e concretos a respeito do número de vidas que se perderam com esta segunda guerra chechena, porém, ao que tudo indica, e contrariamente ao que é esbravejado oficialmente sobre os tão propalados golpes certeiros no “inimigo”, as perdas não serão inferiores ao primeiro conflito. E, ainda que as principais forças do referido território tenham sido destroçadas, a guerra ainda continua e, a cada dia, faz mais vítimas.
Ultimamente estabeleceu-se na Chechênia o assim chamado “governo presidencial” previsto para impor ali a ordem, através de medidas draconianas pela Federação. O mais sinistro, ainda, é que tais são os princípios que norteiam a política presidencial para as outras regiões e territórios do país.
Ainda a 13 de maio do corrente ano, o presidente Putin baixou decreto dividindo a Rússia em sete circunscrições, cada uma sendo encabeçada por um representante de sua confiança. Aproveitou, este, a ocasião para apresentar para a aprovação da Duma (o Parlamento russo) três projetos de lei que versavam sobre a criação de um Conselho Federal dando direito ao presidente de destituir os representantes (governadores) e de dissolver as Assembléias Legislativas locais, bem como sobre o direito dos governadores de destituírem quaisquer dirigentes locais de sua administração.
É digno de nota o fato de que as fronteiras dessas sete regiões federadas coincidam com as fronteiras das respectivas regiões militares e de que, dos sete representantes nomeados pelo presidente para esses territórios, cinco sejam militares ou provenientes de departamentos afins. As sete regiões são: Central, Noroeste, Privoljska, Noroeste-Cáucaso, Ural, Sibéria e Extremo-Oriente.
Doravante, na Câmara Alta do Parlamento russo bem como no Conselho da Federação tais governadores não estarão representados, uma vez que para eles foi criado o Conselho Federado, que, essencialmente, não passa de um típico órgão de consulta.
A reforma administrativa de V. Putin tem por objetivo reforçar a criação de uma estrutura verticalizada da administração com o fito de transferir para si poderes absolutos. Até mesmo o oligarca B. Berezóvski declarou, publicamente, que a referida reforma era inconstitucional. Contudo, a questão não se restringe à apreciação deste ou daquele oligarca. A questão é que, doravante, qualquer oposição ao poder presidencial, tanto mais as dos “comunistas”, poderão sofrer represálias através de repressão exemplar com o uso inclusive da força, militar, respaldadas na lei.
Vale dizer que na Duma a reforma de Putin provocou reações diferenciadas, enquanto que os governadores, por tática, evitaram confrontar-se com o presidente, preferindo adotar o método de agir em silêncio, diplomaticamente, na luta de bastidores, na expectativa de que, de alguma maneira, consigam algum compromisso com o poder através de realizações de retificações nas leis que lhes dizem respeito.
De uma forma ou de outra as políticas do poder se apoiam em sua organização de chefes dos territórios federados que, a longo prazo, podem trazer sérias conseqüências para a unidade russa. Daí, em lugar de fortificar o tal edifício vertical, pode se dar que, com o tempo, as denominadas sete “circunscrições” se tornem “quase-governo” e, posteriormente, em “quase-república”, e, ao que tudo indica, Putin tem consciência deste risco. Entretanto, o carro já entrou em movimento e já não é fácil detê-lo. Nos territórios começam a surgir poderosas administrações que certamente criarão suas próprias tropas, seus próprios procuradores e suas próprias saídas para o mundo afora, etc.
Os sintomas do encaminhamento rumo à ditadura se manifestam nitidamente na tendência do poder central em subordinar para si todos os meios maciços de informação, excluíndo qualquer forma de crítica em sua direção. Na atual etapa isso se reflete principalmente nas políticas da chamada “família” de Bóris Yeltsin (A. Volóchin – dirigente da administração do presidente, V. Ustínov – procurador-geral, V. Yumachev, T. Diatchenko, V. Okúlov, G. Pávlovski – diretor do fundo de política efetiva, D. Med-vediev e outros) e de seus amigos do plano de política financeira: B. Berezóvski, R. Abrámovitch, M. Mamuta e S. Pugatchova, dirigentes do MEJPROMBANCA, que tencionam esmagar qualquer grupo que pretenda alijar do poder o protegido da “família” – V. Putin – ou mesmo que queiram influir nos destinos de sua política para alguma direção incompatível com os interesses do mesmo. O caso se refere, em primeiro lugar, à holding (empresa-suporte) denominada ZAO MEDIA-MOST (com V. Gussinski, O . Dobradeiev, I. Malachenko), que controla os jornais “Hoje”, “Jornal Independente”, a revista “Resultados”, o Canal de TV – NTV e o estúdio da Rádio “Ecos de Moscou”, que são cuidados pelos oligarcas R. Viáhiev, Gasprom e outros) e os radicais e reformadores de direita, nas pessoas de E. Gaidara, S. Kirienko, B. Némtsova, I. Hakamadi, etc.
Tudo isso acontece como pano de fundo na luta pelo poder entre os grupelhos de Moscou e de Leningrado (São Petersburgo para eles), que são crias da “família” e que são encabeçados, respectivamente, por A. Valóchnim e V. Putin. Ultimamente o grupelho moscovita tem-se imposto ao de Leningrado, conseguindo, desta forma, por exemplo, a indicação de V. Ustinova para o posto de procurador-geral, derrubando a candidatura de D. Kozaka e, fazendo avançar a de V. Putin para este posto, diminuindo, de fato, os amplos poderes de A. Kudrina, servidora de vanguarda de Putin, no lugar de primeiro-adjunto do primeiro-ministro no governo do mos-covita M. Kaziánov, que tem ligações próximas com o bilionário R. Abramovitch, e, também, afastar do posto de ministro da economia, desenvolvimento e comércio, outro funcionário de vanguarda de Putin – G. Grefa, que elaborava uma concepção global para a atividade de governo encomendada pelo mesmo.
Como é do conhecimento geral, em meados de junho próximo passado, em entrevista para o jornal alemão “Velt und Zontag”, Putin disse ser uma “luta inútil” a daqueles oligarcas que, na Rússia, tentam, de todas as maneiras, fortalecer sua influência no poder estatal e que, diante disso, estabeleceria com os outros oligarcas que não se ocupavam de tais assuntos, mas apenas de investir capitais em negócios de alto nível na Rússia, um relacionamento de ampla cooperação. As tentativas de dividir os oligarcas em “honrados” e “não-honrados” é sem propósito por si só, e disso sabe muito bem Putin. Apenas uma coisa ficou clara de tudo isso: a política de determinados oligarcas não convém a Putin e aqueles, por sua vez, cogitam criar uma nova candidatura, que lhes satisfaça.
A luta pela repartição do poder central é levada a cabo com os operadores em cada território como representantes do presidente; luta sem trégua nem compromisso. Eis, por exemplo, como definiu seu poder K. Pulikóvski, designado representante do presidente na região de Extremo-Oriente: “Os representantes plenipotenciários fazem as vezes do presidente da Federação Russa, suas posições nas questões legais, de política interna e externa, economia, segurança nacional, esfera social e, é claro, na política profissional (de carreira). Se alguém não estiver de acordo comigo, estará em desacordo com o presidente. E com tais pessoas, que não apoiam o presidente e, portanto, não me apoiam, náo podemos trabalhar”. Eis, pois, como é a democracia à la Putin.
A história da detenção e temporária reclusão do presidente da holding ZAO MEDIA-MOST – V. Gussinski, que é também presidente da congregação hebréia da Rússia e vice-presidente da Congregação Hebréia Universal, em particular, demonstrou claramente a disposição do poder de tapar a boca de qualquer um que ouse criticar a política do presidente e do governo através dos meios maciços de informação, tendo dado, inclusive, orientação ao SMI (Ministério das Comunicações) para o incondicional apoio nas questões pró-Yeltsin no novo rumo do regime. Até A. Tchubais advertiu, a esse respeito, sobre a possibilidade do aparecimento de “um governo semi-fascista”.
A esse propósito é importante destacar que Vladimir Putin tornou-se o chefe do governo sem dispor de capacidade própria de comando. Formou-se, assim, ao seu redor um grupo heterogêneo, destacando-se nele três grupelhos, ocorrendo em cada qual renhida luta pelo por algum poder.
O primeiro grupelho a se congregar em torno de Putin foi o do ex-comando de Yeltsin, mais conhecido pelo epíteto de “a família”, parte do qual logo se aliou ao lado de Putin. Assim, a ele se juntaram os oligarcas antes referidos e conhecidos oligarcas-empresariais como R. Abrámovitch, B. Berezóvski, além de A. Volóchina, M. Kassiánova – ministro MPC, N. Akcenenko e o ex-ministro da energia e combustíveis – V. Kaliúchnov, além de outros.
O segundo grupelho é o de S. Petersburgo, cujo sustentáculo é formado pelos economistas liberais seguidores das orientações de A. Tchubais. Esse grupelho alcançou os mais importantes postos no governo e é exatamente o que toma as decisões econômicas mais importantes. Diante de tal situação, o dirigente do governo M. Kassiánov, considerado outra criatura d’ “a família”, mal consegue desempenhar algum papel. No que se refere a A. Tchubais, como é sabido, apoiou sem hesitar a candidatura de V. Putin para o posto de presidente, o que, de forma substancial, definiu a posição dos “direitistas” que, contudo, agora, começam a conspirar contra Putin.
O terceiro grupelho em torno de Putin é formado pelos seus ex-colegas de trabalho (do Spetslujb – serviço especial) e representantes de círculos do exército, incondicionais apoiadores da política putiniana (desculpem o palavrão) sobre a Chechênia. É característico que é justamente sobre essas pessoas que está depositada a confiança como representantes nas circunscrições federadas (aquelas a que já nos referimos acima).
E assim, contando com as deserções da “família” e oscilando para o lado de Putin e seus adeptos, aqueles já controlam, embora ainda não inteiramente, a administração presidencial – centro mais importante da atual política de poder.
Trabalhando em consórcio com A. Tchubais conseguiram ocupar os postos-chave do governo.
A plêiade de Putin, ao lado dos militares e do Spslujb, conseguiu subjugar o Conselho de Segurança e deu o retoque final na composição do mesmo com A. Kvachin como Comandante do Estado-Maior que, assim, fugiu, ao mesmo tempo, da tutela de I. Sergueiev (no Ministério da Segurança) e estar em linha direta com o presidente.
Imediatamente o Conselho de Segurança começou a efetuar mudanças na administração e no governo. Para ser mais preciso, adotou, por exemplo, a mesma concepção da política externa da Federação Russa e até despachou, em suas sessões, alguns projetos econômicos referentes à indústria e à agricultura e, evidentemente não por acaso, intrometeu-se na composição do Conselho, circunscrevendo nos postos-chave representantes de confiança oriundos do grupo.
A tentativa do novo regime em estabelecer “a ordem na Rússia” por via de uma ditadura direta da classe dirigente, com a remoção de qualquer obstáculo incômodo em seu caminho, além das arremetidas com a oposição, não tem dado resultados significativos.
Em que pesem as aspirações de Putin ao pleno controle do regime, contando com a mass-mídia, com dois canais de TV e duas estações de rádio oficiais além de uma série de jornais e revistas de ampla tiragem etc., que, por todos os meios possíveis tem procurado embelezar a situação do país, inclusive propalando sempre a “iminente” recuperação econômica, a crise política da restauração capitalista se agudiza cada vez mais.
Desde que Yeltsin chegou ao poder na Rússia, em junho de 1991, a produção industrial reduziu-se em nada menos que 60%, e a desindustria-lização continua. Há, hoje, no país, cerca de 20 milhões de desempregados e semi-empregados. Milhares de empresas industriais e agrícolas ou estão em decadência ou simplesmente desapareceram (destruídas, saqueadas, etc.) Na Rússia dessa nova era de liberdade, contam-se aos MILHÕES os cidadãos que vivem na ABSOLUTA MISÉRIA.
Os conhecidos anos da “Reforma” fizeram o orçamento da Rússia cair em quase 10 vezes, e, hoje, ele é menor que o orçamento da Finlândia (que tem uma população de 5 milhões de habitantes) e é menor que o orçamento de qualquer dos estados dos EUA. Saíram da Rússia, de maneira irrecuperável, nada menos que 500 BILHÕES de dólares (norte-americanos) e a saída de capitais não para nunca. As taxas de impostos são elevadas (recentemente em torno dos 46% para as empresas) o que inviabiliza o desenvolvimento da produção. A coleta de impostos só atinge entre 70 e 80% do devido. Dos 2,6 milhões de pessoas jurídicas, os que conseguem pagar alguma coisa não atinge os 400 mil. Para os demais há insuficiência de rendimentos, significando crônicas inadimplências, atrasos nos compromissos de pagamentos, inclusive de pensões e serviços sociais.
Como resultado das pri-vatizações de rapina já executadas, a parte da propriedade estatal diminuiu de 91% em 1992 para tão somente 17% agora.
A produção da indústria bélica caiu 10 vezes. Muitas das indústrias militares não receberam mais pedido do governo. Devido ao desmonte da VPR (indústria estatal de armamentos), a Rússia não tem mais capacidade para produzir armamentos de última geração.
Perto de 80% do volume total de exportação da Rússia advém de recursos naturais do país, isto é, de matéria-prima. Da Rússia se exporta mais de 90% da produção de alumínio, cobre e estanho; 70% do zinco e 40% do petróleo e gás. Isso acarreta a consolidação de uma orientação colonial típica de país produtor de matéria-prima e atraso tecnológico.
A produção agrícola diminuiu em 46%, com o desmoronamento do complexo agro-industrial do país. A insuficiência de grãos, só devido à falta de fertilizantes, atinge incríveis 40 MILHÕES DE TONELADAS anuais A produção de carne diminuiu em 2,2 vezes e a de leite em 1,7.
O transporte encontra-se em estado de profunda crise. O nível de desgaste do transporte aéreo é de 72% (imagine-se o risco de acidentes, aliás já em ocorrência na aviação comercial e noutras da Rússia). A idade média atual da frota fluvial é de 20 anos, quando se sabe que a idade limite aceitável é de 15 anos. Os trens à eletricidade têm, hoje, em média, 28 anos (idade crítica= 25 anos).
Em nível de desenvolvimento, a Rússia caiu de entre os 10 primeiros para o lugar 29, considerado nível de vida de país subdesenvolvido. A relação entre a receita dos 10% mais ricos para os 10% mais pobres subiu para 13:1. A pensão média do russo “garante” apenas de 30 a 50% do mínimo de sobrevivência. E a pensão mais baixa não é nem 10% daquele valor.
Igualmente ocorreu um rápido empobrecimento da juventude durante os anos da chamada “Reforma”. Houve estratificação de classe: 29% dos que têm entre 16 e 30 anos de idade são pobres, 2% são ricos. Dos desempregados do país, 35% estão entre os jovens.
A parcela da população que vive na absoluta miséria (“miséria diabólica” em tradução direta da língua) atinge os 40% do total, quando o limite internacional está entre os 5 e 10%. 52 milhões de pessoas recebem menos que o mínimo indispensável para viver o que está levando à lumpenização (degradação física e espiritual) de amplas camadas da população. Há, hoje, no país, 5 milhões de crianças sem lar (abandonadas).
A expectativa de vida entre os homens caiu aos 58 anos e entre as mulheres a 72 anos (ao tempo da URSS estava perto dos 80 anos). A natalidade diminuiu pela metade, enquanto que a mortalidade infantil cresceu em 150%. Esse crescimento da mortalidade infantil, combinado com a queda da natalidade e da expectativa de vida em geral entre os russos está produzindo a diminuição populacional, isto é, o que está em curso é um verdadeiro genocídio nacional.
Prossegue a crise nos âmbitos da educação e da ciência. Nos dias que correm, cerca de 5 milhões de russos em idade escolar não estão estudando. Devido à falta de atividades a maior parte do antigo pa-trimônio científico está fora de condições de uso.
A ruinosa política reformista das administrações burguesas atuais resultou na piora da capacidade de defesa das forças armadas do país: o nível orçamentário para a defesa diminuiu entre 8 e 10 vezes, destacando-se, ainda, a queda brutal na qualidade técnica do equipamento militar. Caiu, concomitantemente, o moral da tropa. Pelo volume de armas convencionais a Rússia de hoje, comparada com os membros da OTAN perdem na razão de 3:1. A entrada da Polônia, República Tcheca e Hungria para o clube da OTAN aproximou a fronteira russa do referido bloco em 650/700 Km, o que, na prática, possibilita àquele Clube Bélico o poder de causar seríssimos prejuízos ao país, sem a necessidade de recorrer a armas nucleares.
Paira séria ameaça à segurança alimentar do país, uma vez que a parte importada de víveres para o abastecimento é de 56%, sendo o limite internacional de 30%.
Os fatos acima relatados estão embasados em matérias colhidas junto à Academia de Ciências da Rússia e em relatórios “oficiais” (ministeriais) e que foram publicados na imprensa russa.
Há que se falar, em especial, sobre a corrupção e a criminalidade. Em junho de 2000 o ministro para assuntos internos – I. Zubov – revelou à opinião pública “a conexão de funcionários públicos de elevado escalão inclusive de governadores com associações de criminosos”. Ele comunicou que, na Rússia, atuam 11 poderosas associações de criminosos, as quais congregam 243 grupos de organizações do mesmo gênero, contando com cerca de 50 mil membros ativos. Um terço dessas associações controla 5 mil indivíduos que têm atividades econômicas diversas. Nos últimos anos tornou-se um sério perigo a presença do terrorismo internacional dentro do país, que se fortaleceu principalmente ao norte do Cáucaso e tem estreita ligação com comparsas locais organizados e traficantes de droga.
Os fatos demonstram cabalmente que o regime “legal” com V. Putin no comando, procura encontrar alguma saída para a economia russa, que se encontra em profunda crise, às custas dos trabalhadores. O presidente, desde o início, comunicou, com muita energia, que nenhuma revisão relativa às priva-tizações vai acontecer, nem daquelas do começo da década. Uma série de comunicados presidenciais dão testemunho de que o regime prepara, sorrateiramente, a introdução de uma nova lei sobre compra e venda de terras no país, o que, fatalmente, levará ao restabelecimento da classe dos latifundiários, classe que foi extinta por ocasião da vitória da Revolução Socialista de Outubro em 1917. Prepara, também, uma nova lei sobre a “distribuição da produção” direcionada a criar condições favoráveis à entrada do capital estrangeiro. Com isso, os mecanismos de controle estatais serão totalmente enfraquecidos.
Está em vista, ainda, uma lei sobre o imposto único, com tarifação de 13% em lugar do atual imposto progressivo (12 a 30%), o que deverá acarretar maior concentração de riqueza em mãos dos ricos e pobreza para os mais pobres. Ao mesmo tempo, a lei prevê novos e profundos cortes do orçamento oficial para fins sociais: acabando com os subsídios para construção de moradias, e algumas facilidades de que ainda se servem os veteranos, pensionistas e as crianças As novas leis não param por aí, prevêem mais, a transferência para o controle governamental dos fundos de seguridade social e os de pensões, que obtêm uma cobrança efetiva da ordem de 95% (1999), enquanto o de impostos não passa dos 76%.
O governo está empurrando goela abaixo da Duma o novo Código do Trabalho que, de fato, deixa de fora a participação dos trabalhadores no acompanhamento dos seus direitos econômicos e sociais e nos seus acordos e diálogos com os empresários. O código propõe, entre outras, prolongar a jornada semanal de trabalho, elevar o piso etário mínimo para fins de aposentadoria, permitir o emprego de crianças no mercado de trabalho e outras “conquistas”... Estão também em discussão formas de pagamento para todos os serviços de educação e saúde.
Os primeiros passos do novo regime no âmbito da política externa provocou verdadeiro alarme e preocupação em amplos setores da opinião pública. Como amostra, é suficiente lembrar a ratificação, pela Duma, a 14 de abril de 2000, do “Acordo” entre a Federação Russa e os EUA sobre a implementação do projeto de redução e/ou restrição de armas estratégicas ofensivas (Acordo SNV-2), cuja execução levaria à liqüidação da invulnerabilidade da Rússia além das limitações de outros poderosos componentes estratégicos nucleares, como os foguetes balísticos intercontinentais (de longo alcance) e as multiogivas. Praticamente, tal acordo se reduz ao desarmamento unilateral da Rússia diante de ações belicistas cada vez mais descaradas dos ianques.
A tentativa da nova direção russa de condicionar a implementação desse Acordo SNV-2 pelo acatamento, por parte dos norte-americanos do Acordo PRO de 1972 requer séria atenção: Os EUA há muito tempo que tomaram a firme decisão de criar um sistema nacional de defesa anti-balística (o tal “escudo” anti-mísseis), que cobriria todo o território dos EUA, e não há nenhum indício de que tenham abdicado de tal propósito..
O comunicado de Putin sobre a possibilidade da entrada da Rússia na OTAN trouxe novo elemento complicador nas suas relações com a República Popular da China. O restabelecimento por parte da Rússia de amplas ligações e cooperação com a OTAN, suspensas durante a agressão dos EUA à Iugoslávia, em essência, significa um movimento prévio de cooperação estratégico com o imperialismo ianque.
A administração pela OTAN da camarilha militar de Kossovo, com o objetivo de dividir a Iugoslávia e eliminar o regime de Milosevic, não encontrou, por parte da Rússia, a devida oposição e resistência.
Na prática não se vê nenhuma iniciativa mais decisiva na política de integração regional (a chamada SNG), incluindo as relações com a Belorus. Muitos observadores supõem que, com o tempo, após a chegada de Putin ao poder, o ponto estratégico da política do regime não tem sido tanto a economia quanto a política de inte-gração militar. Fica evidente, com isso, que a integração no caso da SNG é inatingível já que se oferece em bases puramente burguesas (de dominação).
A propósito disso, pareceu bastante desconfor-tável para Putin o resultado da Conferência realizada há pouco pelos chefes de Estada da SNG em Moscou, onde todos os assuntos se conduziram no sentido de se criar a nível daquela organização, um Centro Internacional Anti-terrorista, que deverá planejar e dirigir operações especiais contra terroristas e extremistas. É impossível não notar que tal Centro poderá ser literalmente usado para reprimir qualquer participação maciça do povo contra a política de restauração capitalista.
A crise no âmbito da SNG se manifesta no enfraquecimento dos contatos entre os estados-membros sobre a segurança prevista no Tratado firmado em 1992. Como é sabido, do Tratado retiraram-se o Uzbequistão e o Azerbaijão. É sintomático que, enquanto os líderes da SNG se reuniam no Kremlim, ao mesmo tempo no Mar Negro a OTAN realizava exercícios marítimos militares de envergadura, em conjunto com o Azerbaijão, a Geór-gia e a Ucrânia.
A política interna e externa antipopular dos regimes de restauração burguesa na Rússia, Ucrânia, Belorus, Casaquistão e outras ex-repúblicas soviéticas tem provocado a crescente oposição das massas trabalhadoras desses países, em primeiro lugar, da classe operária. É bem verdade que as maiores exigências dos trabalhadores têm sido, essencialmente, de caráter econômico e só de tempos em tempos passam por exigências de caráter político como as de afastamento dos presidentes e repúdio a seus governos de restauração capitalista. O movimento grevista adquire um caráter cada vez mais maciço. Das greves têm participado trabalhadores de diferentes ramos industriais, estudantes, professores, médicos, cientistas.
Nova palavra de ordem foi dada pelos operários da fábrica de papel e celulose em Viborg. Botaram para fora o execrável proprietário e, por um bom tempo, mantiveram sob seu controle a empresa. O exemplo foi seguido por uma série de outras categorias de trabalhadores em outras regiões da Rússia. Todavia,o governo tem conseguido dominar essas situações, basicamente promovendo o divisio-nismo nas fileiras grevistas, como a velha tática de lançar mão dos fura-greves e, em casos extremos, como foi o de Viborg, utilizando-se de forças militares. Inclusive, nesse caso, atiraram para cima dos trabalhadores, tendo havido mortos.
A situação do movimento comunista na Rússia e territórios das ex-repúblicas soviéticas permanece complicada. O maior dos partidos que carrega o nome de comunista, aquele que, de momento conta ainda com o maior número de filiados, é o Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), que, em essência, debandou-se completamente para posições da social-democracia, embora continue a ostentar o nome de comunista. Na direção desse partido encontra-se, há muito tempo, G. Ziuganov. Sua direção renegou por inteiro os ensinamentos da teoria marxista-leninista a respeito da luta de classes, ditadura do proletariado, revolução socialista, etc. Sua estratégia, desde o início, tem sido a de participar nas eleições parlamentares. Isso ficou bastante evidente por ocasião das eleições para a chamada Segunda Duma pós queda do socialismo e, para o período 1996-2000 conquistou significativo número de assentos no poder legislativo. O PCFR estabeleceu como objetivo o papel de “OPOSIÇÃO CONSTRUTIVA E RESPONSÁVEL” .
Os seguidores de Ziuganov, via de regra, apóiam os orçamentos propostos pelos governos burgueses e, invariavelmente, tomavam e continuam tomando parte das “mesas redondas” organizadas pela presidência do país, assim como de encontros de consulta para discussão de projetos-de-lei ou emendas de natureza burguesa que acabam restringindo recursos sociais e outros direitos do povo, sem procurar mudar nada de sua essência. Por exemplo, votaram a favor da nova lei de “distribuição da produção” que é altamente elitista. Enfim, de uma forma ou de outra o PCFR tem sido co-partícipe das atividades anti-nacionais promovidas pelos reformadores burgueses.
Nem mesmo a colaboração dos seguidores de Ziuganov na questão do “impeachment” (impedimento) do presidente apresentada contra Yeltsin, saiu do âmbito das exigências burguesas, isto é, não foram acompanhadas por nenhum trabalho de mobilização que viabilizasse a participação popular, principalmente das massas trabalhadoras.
Na direção do PCFR estiveram, por longos períodos, figuras tão odiadas e odiosas como A. Rútskoi, I. Ribkin, A. Tuleiev, A. Podberezkin e que se transferiram depois para o bloco do regime burguês. A direção desse partido se auto isolou de atividades participativas de cunho social. Não teve nada a dizer, por exemplo, aos participantes da chamada “guerra dos trilhos”, quando milhares de mineiros promoveram, há cerca de dois anos, uma greve geral pelas minas carbo-níferas de toda a Rússia.
Nas eleições presidenciais de 26 de maço de 2000, Ziuganov obteve 22 milhões de votos, isto é, 8 milhões a menos que da vez anterior, em 1996. Ele sofreu derrota até mesmo nas regiões consideradas “tradicionalmente vermelhas”, como em Volvogrado (Extremo) e Crasnodar. Outros candidatos do bloco das forças conhecidas como patriótico-nacionalistas da Rússia (NPCR), cuja estrutura compunha o PCFR, fracassaram por completo tanto nas eleições parlamentares como nas presidenciais. Como resultado deu-se um enfraquecimento do PCFR na Duma, perdendo certo controle que detinha sobre aquele poder. E, assim, o bloco do PCFR encontra-se, agora, verdadeiramente arruinado: abandonado por muitas das organizações filiadas e pela maioria dos antigos líderes, incluindo seus ex-vice-presidentes A. Tuleiev, S. Govoruhin e A. Podberezkin. No que se refere ao próprio partido, este, atualmente, não sobrevive apenas de crises consecutivas; encontra-se, a bem da verdade, em estágio de implosão. E, fazer agora um balanço crítico com vistas a alguma perspectiva futura com tal linha política anti-leninista e de “integração com o poder estabelecido” das oligarquias burguesas, que foi o que, desde o começo norteou a direção do PCFR, é, absolutamente, fora de propósito!
Ultimamente surgiu um movimento nas profundezas dos partidos comunistas da ordem no sentido de buscar a sua união. Nasceu, assim, o SKP-PCUS (União dos Partidos Comunistas-Partido Comunista da União Soviética), cujo objetivo imediato é fundar um único partido que consideram deva ser “marxista-leninista”. A 15 de julho passado, em Moscou, foi marcada a realização de um Congresso com tal objetivo. Chamar-se-ia, tal partido, de Partido Comunista da União, ou, ainda, outro nome mais adequado que viessem a adotar. Seu líder, O. Chenin, rompeu publicamente com a linha revisionista de G. Ziuganov. Justiça seja feita a Chenin que, de tempos em tempos, o havia submetido a duras críticas, mesmo no início, sobre suas posições revisionistas. Entretanto, na direção do SKP-PCUS surgiu uma cisão. Contra a formação e fundação do Partido Comunista da União intervieram os suplentes do presidente do Conselho do SKP-PCUS – E. Ligachev e E. Kopichev. Inclusive E. Ligachev jurou que não iria admitir a fundação de tal partido.
Evidentemente que contra a fundação do Partido Comunista da União lançou-se também, imediatamente, como jurado inimigo, o Sr. G. Ziuganov e Cia. O secretário do Comitê Central do PCFR, que nem é membro do SKP-PCUS, para onde aderiram outros partidos da mesma linha, – o Sr. N. Bindiukov – comunicou publicamente.(Documento do Partido Comunista dos Bolcheviques de Toda a União,
cuja Secretária Geral é Nina Andreeva)
(Enviado por Aleksander Barichev)Publicado no Jornal INVERTA 267 (de 04 a 17/10/00)
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