Guerra bacteriológica contra a Colômbia

Numa nova escalada de intervenção militar na Colômbia, Washington planeja o uso de armas biológicas nas zonas libertadas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), atingindo fauna e flora amazônica.

O respectivo procedimento foi desenvolvido pela Universidade do Estado de Montana (Estados Unidos) e consiste em jogar o fungo Fusarium oxysporum de milhares de metros de altura sobre os cultivos de coca, para destruí-los.
O autor intelectual da idéia de utilizar o fungo como bioherbicida contra a planta que os indígenas aymara chamam khoka – e cujo uso legalizou a Coroa espanhola para o extenuante trabalho forçado nas minas- é o Dr. David C. Sands, especialista em patologia de plantas. Contudo, no contexto genético do projeto, aparecem também o Departamento de Agricultura norte-americano e a transnacional Coca-Cola, tal como informou uma recente reportagem do New York Times.
Quando nos anos oitenta os movimentos armados peruanos pareciam converter-se em ameaças revolucionárias para o Estado andino, a transnacional Coca-Cola decidiu estabelecer uma plantação de coca no Havaí a fim de assegurar o submi-nistro da planta (sem seus componentes estimulantes) para suas bebidas. Ao se reprimir os movimentos armados peruanos mediante o golpe militar e a subseqüente ditadura de Alberto Fujimori, a Coca-Cola abandonou a plantação no Havaí e o Departamento de Agricultura decidiu utilizá-la para provar diferentes herbicidas – potencialmente úteis na “guerra das drogas” – convidando o Professor Sands para participar nessas investigações.
Foi nessa ocasião que Sands descobriu a capacidade destrutiva do fungos sobre a coca. Sands cultivou o fungo e o adaptou às necessidades da guerra biológica. Para economizar o uso do fungo se aplica, mediante um spray, à semente de pastos nativos da região onde será utilizado. Depois, essas sementes são espalhadas a partir de aviões sobre as plantações de coca. No solo, o fungo se reproduz, mata a coca e em seu lugar crescerá o pasto. O fungo sobrevive no solo até cinco anos depois de haver destruído a coca. Uma das grandes vantagens deste método na guerra de contra-insurgência é que o vetor (a semente) pode ser espalhado de avião a milhares de metros sobre o branco, enquanto que os herbicidas químicos atuais devem ser aplicados de baixas alturas e em plena luz do dia, o que é um risco para os pilotos.
A importância que concede Washington a este projeto de guerra biológica se expressa na enorme quantidade de pessoas empregadas – segundo Sands, ao redor de 500 pessoas – e no fato de que membros do Congresso norte-americano solicitaram ao governo da Colômbia a permissão para que se realizem provas de eficácia do fungo no país sul-americano, durante dois anos.
Funcionários colombianos dizem que aplicarão um fungo nativo, mas, à luz do status neocolonial do país, é pouco provável que isto se suceda.
As implicações ecológicas desta estratégia de guerra contra os movimentos de libertação nacional na Colômbia – disfarçada de guerra contra o narcotráfico – são imprevisíveis. Ninguém sabe que efeitos pode causar a aplicação do fungo na enorme biodiversidade da flora e fauna tropical da Amazônia compartilhadas por Colômbia, Peru, Equador e Brasil. A ciência moderna não está em condições de prognosticar com precisão os efeitos que causam insetos disseminados sobre ecossistemas alheios; muito menos pode fazê-lo sobre micro-organismos como fungos e bactérias.
Isto, no entanto, não importa, porque Washington decidiu acabar com os movimentos populares colombianos, de qualquer jeito: pela capitulação incondicional ou pela destruição física. Como em sua agressão à Nicarágua sandinista, bloqueia toda negociação séria; e, como no Vietnã, utiliza de maneira criminosa seu enorme poder destrutivo, para impor seus interesses. No Vietnã, após quase três décadas de terminada a guerra, nascem todavia ano após ano milhares de crianças com má formação genética, causadas por dezenas de milhões de litros de produtos químicos tóxicos (2,4- D) empregados sobre cultivos, bosques, animais e seres humanos pela máquina de guerra de Washington. De fato, a guerra química teve tal magnitude que a quantidade de desfolhantes e outros produtos tóxicos foi suficiente para destruir os cultivos de mais de 50% de toda a terra arável do Vietnã do Sul.
Frente à ascensão das lutas populares latino-americanas contra a política neoliberal de Washington, o império volta a seus métodos de guerra suja. E novamente, cientistas sem consciência e potências sem ética, como as européias, se tornam cúmplices da agressão.

Heinz Dieterich Steffan       
Correos para la Emancipación
Enviado pela Red Resistencia



Texto traduzido e publicado no Jornal INVERTA nº 259 (de 09 a 15/08/00)

 
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