EUA colocam em risco a Amazônia
com lançamento de praga na floresta


Como denúncia contra esse que pode ser mais um crime contra a humanidade perpetrado pelo imperialismo norte-americano, contra o povo brasileiro, latino-americano e a humanidade em geral, o INVERTA conversou com o geógrafo Orlando Valverde, presidente do CNDDA (Campanha Nacional em Defesa e Pelo Desenvolvimento da Amazônia), especialista renomado internacionalmente, por seus estudos sobre a Amazônia; e com o general Carlos Hess de Melo, um dos diretores da entidade, criada em 1967, e que teve no seu quadro também José Nilo Tavares, falecido, membro do Conselho Editorial de INVERTA.

Nesta edição, também com exclusividade, uma entrevista com Hernán Ramírez, da Comissão Internacional das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército do Povo (FARC-EP), que esclarece ao leitor brasileiro, sobre os objetivos reais do governo ianque ao colocar em risco a Amazônia; trechos do  comunicado assinado por cientistas latinoamericanos sobre o Fusarium Oxysporium e entrevista com Juvelino Strozack, membro da Comissão de Direitos Humanos do MST.

As recentes informações de que o Governo dos EUA decidiram lançar a praga, conhecida como Fusarium Oxysporium, na parte da Amazônia, que está em terras colombianas, supostamente para erradicar o cultivo de coca, pode colocar em risco toda a Amazônia, notadamente, a Amazônia brasileira.

Essa medida criminosa, a pretexto de combater o Narcotráfico, mas que, na verdade, será implementada nas áreas ocupadas pela guerrilha, especialmente nas áreas sob o comando das FARC-EP, pode causar danos incalculáveis na biodiversidade da região.
A reação norte-americana aprecia essa guerra química há muito tempo como intromissão nos assuntos internos dos países, desconhecendo totalmente a autodeterminação dos povos: quem já se esqueceu do lançamento de Napalm no Vietnã?
 

“Danos podem ser incalculáveis”, adverte Valverde

O geógrafo Orlando Valverde, da CNDDA, especialista em Amazônia, explicou ao INVERTA os efeitos nocivos do Oxyporium Fusarium e os perigos na Amazônia Brasileira: “isso pode prejudicar também a Amazônia Brasileira, é claro. As pragas e moléstias não reconhecem fronteiras, nem limites políticos.

Esses microorganismos surgiram, na década de 60, ninguém sabe como, nos pimentais da Colônia Japonesa, em Tomé Açu, no Sul do Pará, que na época eram imensos e lucrativos. Técnicos de várias partes do mundo tentaram acabar com a praga, mas não conseguiram. Até hoje, as plantações de pimentais, nessa região, duram apenas de 6 a 7 anos. Desde que surgiu o Oxyporium, deixaram de ser cultura permanente”.

Ele advertiu também os riscos para o ecossistema da Amazônia, da introdução deste predador, devido às características da Floresta Amazônia: “A Amazônia tem um dos ecossistemas mais ricos e mais frágeis também, por ser quente e úmida. Tem um bloco genético muito amplo, e ninguém pode dizer que conheça-o. É um salto no escuro provocar o aparecimento de espécies novas em áreas como a Amazônia. O Fusarium pode provocar um desastre terrível, pois é um predador de espécies, e num local onde há uma variedade enorme, como na região amazônica, num clima quente e úmido, as perdas seriam incalculáveis.”

Não é de hoje que os Estados Unidos tentam “modificar” a Amazônia, para atender a seus objetivos econômicos e políticos. O magnata americano John Ford, tentou na Amazônia, o cultivo de culturas homogêneas: “ele mandou cultivarem grandes plantações homogêneas, grandes seringais, mas a Amazônia, mãe-pátria da seringueira, não tem como produzir borracha em grande escala, como ele queria, e apareceram, na época, fungos nessa região em decorrência dessa prática (...)”.
 

“O que pretendem é tomar a Amazônia”

Segundo declarou ao INVERTA o Gal Hess de Melo, um dos diretores da CNDDA, é claro o objetivo dos EUA em relação à Amazônia: “o que eles pretendem é tomar a Amazônia porque ela representa hoje uma das áreas onde há uma biodiversidade imensa e tem um importante capital para o futuro da tecnologia e um tesouro inestimável, que valerá mais que o petróleo, que é a água”.

O diretor do CNDDA também adverte que os EUA estão variando a forma dessa invasão: “eles querem é controlar a Amazônia, como estão controlando nossa economia, através da privatização das estatais estratégicas. Eles querem evitar uma invasão armada porque seria um grande Vietnã”.
 

Comunidade científica em alerta

Num comunicado endereçado ao presidente Andrés Pastrana e aos meios de comunicação nacionais e internacionais, mais de 50 cientistas colombianos denunciam que a implementação de estratégias de controle biológico, baseadas em agentes colocam em risco a segurança tanto da saúde humana e animal como da estabilidade dos ecossistemas neotropicais e bem estar em geral da Colômbia e que o governo colombiano deve se responsabilizar diante do povo de qualquer dano em decorrência da utilização do fungo, como medida para erradicar o cultivo de coca, pois baseados nas experiências de sua utilização em outros sistemas, não estão de acordo com a utilização.
 

MST: “Num Tribunal Internacional, já estariam presos”

Segundo Juvelino Strozack, membro da Comissão de DH do MST, a entidade sempre estará do lado dos povos oprimidos e explorados: “isso é um crime contra humanidade, essa utilização de armas químicas, tanto quanto foram crimes praticados na Alemanha nazista, é tão grave quanto, ou pior, do que fizeram nos campos de concentração pelo exército nazista. Isto tem que ser denunciado a toda opinião pública. A desculpa de combater o narcotráfico sempre foi utilizada pelos EUA para combater as organizações populares na América Central. Evidente que há um grande problema com o Narcotrá-fico, mas os EUA não podem ficar intervindo nos países. Cabe ao povo e às organizações de cada país se organizarem para fazer com que os EUA deixem de intervir nos assuntos internos.

Evidente que se já estivesse instalado o Tribunal Penal Internacional seria determinada a prisão, em especial do Governo ou das organizações que patrocinam esse tipo de ação. Vamos aproveitar o nosso IV Congresso para realizar um protesto em frente da Embaixada dos EUA, divulgaremos o máximo possível que a intervenção dos EUA somente traz prejuízo e matança.

Carla Monteiro e Gilka Sabino
 
 

HERNAN RAMIREZ, das FARC-EP,
fala sobre a guerra bacteriológica

Em função da grave denúncia feita pela comunidade de cientistas colombianos sobre a estratégia norte-americana de derrotar o vitorioso movimento FARC-EP - Exército do Povo com a utilização do Fusarium Oxysporium, na Amazônia colombiana, e das conseqüências que podem trazer, tanto para o povo colombiano e brasileiro como para a humanidade, o INVERTA entrevistou Hernán Ramírez, representante da FARC-EP no Brasil, que denunciou a estratégia hedionda imperialista e conclamou o proletariado nacional e internacional a lutar contra esta ofensiva de extermínio bacteriológico.

I- Qual sua opinião sobre o comunicado dos Cientistas Colombianos sobre Fusarium Oxysporium?
HR - A denúncia feita por cientistas que moram dentro e fora da Colômbia, que se refere à utilização do Fusarium Oxysporium para erradicar o plantio da coca é muito importante, é preciso que a população conheça essa denúncia e saiba qual a posição das FARC-EP frente ao fenômeno de erradicação dos cultivos ilícitos: que se faça a substituição do plantio pelo camponês e não tenha nenhum tipo de fumigação aérea para esse fim.

I - Que danos pode trazer  a utilização do Fusarium Oxys-porium?
HR - A utilização desse fungo ainda está em fase experimental, portanto as conseqüências não são previsíveis, porque é um fungo produzido fora da Colômbia  por laboratórios e cientistas norte-americanos, que ainda não têm o resultado na prática da experiência, mas pela aplicação de outro tipo de elemento de Glifosato, a conseqüência por exemplo desta fumigação são a eliminação não só da coca, mas também de crianças e plantios diferentes como: milho, mandioca, banana; a morte dos animais: galinhas, cães, porcos e o envenenamento pelas correntezas dos rios, córregos...

I – Que implicações tem a guerra bacteriológica com luta pela libertação implementada pelas FARC-EP?
HR - A aplicação do fungo daqui para frente na Amazônia colombiana está dentro do planejamento da operação Colômbia, que esta direcionada a exterminar o mato onde se refugiam algumas frentes guerrilheiras das FARC-EP. Portanto, não se trata de acabar com o cultivo da coca, mas de tirar a cobertura natural do movimento  guerrilheiro para exterminá-lo com a guerra que fala o Plano Colômbia. Essa estratégia tem o pleno conhecimento e autorização do governo colombiano e se trata de uma intervenção  norte-americana mais direta, mais escalonada, e se trata de uma intervenção igual a que foi feita no Vietnã: o desmatamento mediante a aplicação da guerra bacteriológica e química para acabar com o movimento guerrilheiro na Colômbia.

I- Que conseqüências podem trazer essa ação para a Amazônia brasileira?
HR - Essa questão é muito importante, pois mais de 10 rios grandes que nascem na Colômbia são afluentes do Amazonas, e estes elementos espalhados por meio de aviões caem nas correntes dos rios que podem ser envenenados, como vem sendo todos os rios que desembocam no Amazonas. Por isso o prejuízo vai se estender para o Brasil.

I - Essa guerra bacteriológica é porque o imperialismo está perdendo na guerra ?
HR - Exatamente, como as tropas oficias da Colômbia estão perdendo a guerra frente ao movimento guerrilheiro, frente às FARC-EP, então os Estados Unidos intervêm, escalam a guerra e buscam o extermínio por estes meios científicos, assim como fizeram na guerra do Vietnã, que tampouco ganharam.

I- Qual é a estratégia das FARC-EP?
HR - As FARC-EP estão conscientes da gravidade da guerra que pode ocorrer na Colômbia. Nossa estratégia consiste em buscar apoio nacional e internacional para que tenhamos uma saída política ao conflito armado; não se utilize a guerra, mas que se esgotem todos estes recursos. E se não se puder sair civilizadamente do conflito, nossos homens e nossas armas responderão a esta agressão, como têm feito durante 36 anos, porque preferimos combater a morrer ajoelhados.

Carla Monteiro



Texto publicado no Jornal INVERTA nº 259 (de 09 a 15/08/00)

 
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